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Versão Feminina

O mundo aos olhos das mulheres - a dualidade entre a delicadeza e a complexidade! By Freckles & RedHead

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O mundo aos olhos das mulheres - a dualidade entre a delicadeza e a complexidade! By Freckles & RedHead

Mulheres portuguesas: o que mudou nos últimos 50 anos?

Nada melhor que o mês da Mulher para lançar um blog direccionado ao público feminino. Mas embora o dia 8 Março tenha um maior significado relativamente à luta pela igualdade de género, a essência deste blog é partilhar algo feito POR mulheres e PARA mulheres, pois o Dia da Mulher é quando nós quisermos, e por isso mesmo, queremos que seja todos os dias.

 

Para primeiro artigo fomos entrevistar 3 mulheres muito diferentes, não só na idade mas também nas suas vivências. Tentámos perceber o que significa para elas ser mulher nos dias de hoje e o que mudou na sociedade ao longo dos anos.

 

Mariazinha, 84 anos, 3 filhos, 7 netos e 5 bisnetos.Casou aos 17, foi mãe aos 18, aos 20 e aos 25.

   Naquela época as expectativas em relação à vida eram apenas “casar e ter filhos, tratar da casa, tratar do marido e fazer o dinheiro render.” Arrepende-se de não ter concluído o Curso Geral de Comércio, pois quando conheceu o seu marido estava no segundo ano e abdicou dos estudos para ser esposa e mãe. Nessa altura as mulheres tinham muito pouca liberdade, estavam a começar a sair de casa e a empregar-se. Tal como muitas, Mariazinha não tinha um ambiente de harmonia em casa, mas aguentou durante muitos anos, por amor aos filhos, até ao dia em que bateu com a porta e seguiu a sua vida de forma independente, acto de muita coragem para a época em questão. E mesmo arriscando ser olhada com maus olhos pela sociedade, sente que foi “um peso” que lhe tiraram de cima, e a partir daí passou a ser “o chefe da casa, que ganhava para a casa e trabalhava para isso”. 

 

   Quanto ao futuro, mostra-nos uma perspectiva que nos poderia passar ao lado. Com os netos já crescidos, preocupa-a o conhecimento da natureza que os bisnetos vão ter, quando forem adultos. “Há tanta coisa que tem desaparecido que eles são capazes de não chegar a conhecer. (…) Porque o mundo é tão bonito e há tanta coisa bonita, e como a humanidade está a estragar isto tudo, há muita coisa que desaparece.

   

   Apesar da sua idade, e mesmo com as dores nos ossos que tanto a castigam, Mariazinha sente-se uma mulher nova e extremamente optimista. Defende que a mulher de hoje em dia é igualmente positiva e independente, e que se tiver um pensamento bom, consegue aquilo que deseja, coisa que não acontecia no seu tempo: “Uns anos atrás e na minha juventude, isso não era possível, porque nós não podíamos fazer isto nem aquilo que éramos logo apontadas. E hoje a mulher tem mais liberdade. E se ela souber bem mexer-se, é feliz. É feliz e não precisa de ninguém para a sustentar porque faz o seu esforço e não precisa de estar presa a ninguém. E por isso não deixa de ser mulher e de fazer as coisas bem.

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Paula, 47 anos, foi mãe aos 21.

   Não investiu mais na sua formação por ter escolhido ser mãe a tempo inteiro. No entanto, o facto de ter o marido a trabalhar longe foi o estímulo necessário para que decidisse tirar a carta de condução, pois “tinha o carro ali parado à porta e eu a andar a pé”, e “se as outras conseguem, porque raio eu não hei-de conseguir também?”. Embora possa parecer insignificante, este passo foi o que mais a marcou nos seus 30 anos. E apesar de considerar que até aos dias de hoje houve uma melhoria no que diz respeito à liberdade e à independência das mulheres, ainda há muitas barreiras a quebrar nas “oportunidades de trabalho, melhores salários, mais hipóteses de se ter filhos sem que se perca o emprego e mais incentivos”.

   

   Em relação ao futuro, assusta-a o desemprego e a falta de perspectivas para os jovens, embora considere que no século XXI, as mulheres já têm mais liberdade, responsabilidade, respeito e ideais. 

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Amanda tem 32 anos e à pergunta “tem filhos?” responde divertida “os cães contam?”.

   De espírito livre, pensa ter filhos por volta dos 35, 36 anos, embora essa ideia há uns anos atrás estivesse completamente fora de questão. Quando se imaginava com 30 anos, pensava que já teria um emprego fixo que gostasse e uma relação saudável, mas o que aconteceu foi exactamente o oposto: despediu-se de um emprego onde não lhe davam o devido valor e saiu de um relacionamento tóxico com um homem casado. No entanto, essa reviravolta trouxe aspectos positivos pois nessa altura Amanda começou a “abrir os olhos para a vida”, o que lhe permitiu “começar a fazer aquilo que eu gosto, aquilo que eu quero, e a ter um pulso firme em relação às minhas escolhas”. 

   

   Na sua opinião, a sociedade ainda espera que as mulheres sejam politicamente correctas e que sigam o previsível caminho de universidade, casamento, filhos e trabalho e que se mantenham nesse contexto, mantendo o mesmo pensamento de há 30 anos atrás. Por ter um estilo de vida mais alternativo, sente na pele o estigma da “coitadinha, está um bocado perdida na vida”, com o qual não se identifica de todo.

   

   Referindo-se às mulheres de hoje em dia “gostava que elas recuperassem o lado mais selvagem, não me refiro ao lado louco e histérico, mas sim ao lado mais intuitivo, criativo, emocional, aquilo que as define, e isso não acontece. Se falarmos mais profundamente com outras mulheres mais velhas ou mais novas, vamos perceber que os problemas que as afectam são exactamente os mesmos. Ou seja, a perda da identidade, da essência e da genuinidade. Tentam tanto moldar- se aos papéis e padrões da sociedade ou a um relacionamento que deixam para trás tudo aquilo que elas são.

   

   O que a assusta em relação ao futuro enquanto mulher é não conseguir fazer-se valer por si mesma e vincar a sua posição quando é injustiçada, ou simplesmente perder a capacidade de seguir as suas paixões, o que a faz realmente feliz.

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Este artigo vai de encontro à realidade de muitas mulheres, portuguesas e não só, que partilham da mesma força e dos mesmos ideais que estas três mulheres. 

 

   Mariazinha disse algo que nos deixou a reflectir, e para quem acredita nos acasos da vida, faz todo o sentido: “É o que eu digo, está o destino marcado. Eu acredito nisso. Quando nós nascemos há um livro onde está o nosso destino. Nascemos, passamos isto tudo durante a vida que cá estamos e só morremos em tal data que só Deus é que sabe. Só o destino é que sabe quando é essa data de ir embora. Mas quem é que me dizia a mim alguma vez que eu ia para fora, que ia para o estrangeiro? Nunca. E aventurei-me a fazer isso. Porque eu tinha de passar por isso. Até porque a pessoa muitas vezes, só passando por certas coisas e levando certas lambadas da vida, como se costuma dizer, é que vê bem onde é que está e começa a pensar bem nas coisas.

 

   Paula refere um aspecto a que ninguém pode ficar indiferente, pois independentemente do que a mulher alcançou ao longo dos anos, “nada tem valor quando continuamos a ver mulheres morrerem de violência doméstica”.

 

   Amanda deixou-nos uma motivação extra para que nunca duvidemos da nossa força e do nosso valor. “Guerreira. Acho que sobretudo nesta altura temos que ser mesmo guerreiras, temos que vestir uma armadura muito especial e preparar o corpo e a mente para qualquer tipo de batalha, seja ela no trabalho, nos estacionamentos, com nós mesmas, com os outros, acho que é isso, temos que ser guerreiras de espírito aberto e coração forte.

 

 

Assim somos nós. Simplesmente Mulheres.

 

By Freckles & Redhead